Na Amazônia, empreendedorismo feminino estimula práticas sustentáveis

Nesta quarta-feira, 19, é celebrado o Dia do Empreendedorismo Feminino. Às vésperas do encerramento da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, que ocorre em Belém-PA, a data ganha um destaque ainda mais especial pois o papel da mulher na concepção e execução e decisão de ações para a sustentabilidade é tema de diversos debates.

 

Um dos exemplos encontra-se na Região Metropolitana de Belém.

Priscilla Silva Vieira, 43 anos, é CEO da MLX Uniformes, uma indústria de confecção especializada em uniformes profissionais e projetos sustentáveis, com sede no Pará e atuação em todo o Brasil, nascida de um sonho familiar e de uma visão muito clara: valorizar o trabalhador por meio do uniforme.

 

“Eu comecei atuando na área comercial, e aos poucos fui percebendo a necessidade das empresas de ter um parceiro que unisse qualidade, padronização e propósito social”, relembra.

Priscilla relata que com o tempo, o negócio evoluiu — investimos em tecnologia, automação e novos processos e a MLX se consolidou como uma indústria de grande porte, mas sem perder o olhar humano e o compromisso com a comunidade. Hoje, a empresa confecciona dezenas de milhares de peças por mês e atua em todo o país, vestindo grandes marcas e instituições. Nesse contexto, a sustentabilidade entrou de forma muito natural.

“Quando percebi o volume de resíduos gerados pela indústria têxtil, entendi que a produção responsável precisava ser parte da nossa essência. A partir daí, começamos a integrar o conceito de economia circular à nossa rotina: repensando processos, otimizando encaixes, desenvolvendo parcerias e dando destino correto a cada retalho. Hoje, sustentabilidade não é um setor da MLX, é um pilar que atravessa tudo que fazemos”, conta a CEO.

 

Boas práticas – Nesse processo de compromisso com o meio ambiente e com as pessoas, o empreendimento adotou medidas em relação à inclusão social, economia circular, cadeia sustentável, e à educação e engajamento.

“Parte da nossa produção é feita por mão de obra feminina em processo de ressocialização, por meio de parcerias com o sistema prisional e institutos sociais. Em parceria com a Embrapii e o Instituto Avad, trabalhamos o reaproveitamento de resíduos têxteis na produção de tijolos ecológicos, evitando descarte e gerando novos produtos. Priorizamos fornecedores locais e buscamos matérias-primas de menor impacto ambiental. E buscamos letrar, conectar e inspirar a indústria paraense rumo a um modelo mais sustentável”, enumera Priscilla.

Neste contexto, a CEO cita o Upcycling – que é o processo criativo de transformar materiais descartados ou subutilizados em novos produtos de maior valor, qualidade e funcionalidade, reinventando o objeto, agregando valor através da criatividade.

Ao todo, mensalmente, as iniciativas possibilitam o reaproveitamento de 2 toneladas de resíduos têxteis.

De acordo com a engenheira ambiental Camila Salim, mestra em Ciências Ambientais, roupas de algodão, por exemplo demoram cerca de 20 anos para se decompor. Já outras peças, confeccionadas com material sintético demoram ainda mais tempo. “O impacto ambiental no processo de degradação desses resíduos é muito grande”, afirma.

Engenheira ambiental Camila Salim

 

Pioneirismo – No final de 2024, surgiu uma parceria entre a MLX Uniformes desenvolve, Embrapii (Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial) e a empresa Premit, resultando em um projeto de pesquisa e inovação voltado ao reaproveitamento de resíduos têxteis na cadeia da construção civil, com o objetivo de destinar corretamente grandes volumes de resíduos têxteis, integrando indústria têxtil e construção civil sob a ótica da Economia Circular e da inovação aplicada à sustentabilidade.

De acordo com Priscilla, o estudo contempla cinco composições distintas de fibras — 100% algodão, 100% sintéticas e misturas — aplicadas em matrizes cimentícias para a produção de tijolos ecológicos, vigas estruturais e postes sustentáveis.

“Trata-se de uma iniciativa pioneira na região Norte, O projeto será implementado em etapas progressivas, com previsão de ampliação para fase piloto e certificação técnica nos próximos ciclos”, explica a CEO destacando ainda que o projeto está na fase de ensaios e desenvolvimento tecnológico.

 

Capacitação e Geração de Renda – O empreendimento liderado por Priscilla Vieira mantém uma parceria contínua com o Instituto AVAD, sediado no município de Parauapebas, no sudeste paraense, com foco em inclusão social, capacitação profissional e reaproveitamento criativo de resíduos têxteis.

O Instituto promove oficinas, por meio do Projeto Renovavest, com a participação de mulheres da região, com o intuito de valorizar o trabalho feminino, incentivar a autonomia financeira. e estimular o desenvolvimento econômico local a partir da circularidade dos resíduos.

Os resíduos doados pela MLX viram matéria-prima nas mãos das participantes que os transformam em subprodutos reutilizáveis para a indústria e em itens comercializados no mercado local.

A presidente do Instituto Avad, Nádia Aurélio, conta que o projeto já formou 36 mulheres e 20 estão em formação. Das que foram capacitadas, o projeto está focado na etapa de produção de peças, que são brindes empresariais como ecobags e estojos. “Recebemos os resíduos da MLX, da Priscila Vieira, e conseguimos, com esse apoio, atender mulheres em vulnerabilidade social, a maioria mães solo e idosas”, disse Nádia.

Além das oficinas criativas, também são trabalhados conteúdos em ações especificas sobre inteligência emocional, empreendedorismo e educação ambiental.

 

Liderança feminina e negócios sustentáveis – Na avaliação da consultora e mentora Denise Araújo, especialista em liderança, a participação feminina é fundamental na estruturação de empreendimentos sustentáveis.

Especialista Denise Araújo

“Acredito que a sustentabilidade vai muito além das práticas ambientais — ela está nas decisões que equilibram resultado e responsabilidade. Nesse cenário, a liderança feminina tem se destacado por trazer um olhar mais humano, colaborativo e consciente sobre os negócios. As mulheres tendem a enxergar o impacto de suas ações de forma ampla, conectando pessoas, propósito e performance”, aponta a especialista.

 

Texto: Paula Portilho

Fotos: divulgação e de arquivo