Tributação Justa para os empreendimentos da sociobioeconomia amazônica

A discussão sobre tributação da sociobioeconomia ganhou força na COP30, e por um motivo central: é nas comunidades amazônicas que a inovação já acontece, apesar de um sistema fiscal que ainda não reconhece esse valor. Em um momento em que o mundo volta os olhos para a Amazônia, o debate sobre justiça tributária, NCM e incentivos para produtos da floresta torna-se decisivo para transformar potencial em escala.

Nesta entrevista, Lígia Tatto, líder de Presença Institucional da Associação dos Negócios de Sociobioeconomia da Amazônia (ASSOBIO), explica por que ajustar a tributação é o passo mais urgente para impulsionar empreendedores da sociobioeconomia, garantir competitividade e permitir que a Amazônia deixe de ser apenas fornecedora de matéria-prima e se torne protagonista de uma nova economia brasileira.

 

Por que começar a discussão sobre tributação olhando para as comunidades?

Lígia Tatto: Porque é lá que tudo já acontece. As comunidades estão inovando, beneficiando matéria-prima, criando produtos incríveis, mas fazem isso à base de muita garra, sem um sistema tributário que reconheça esse valor e o diferencie dos outros sistemas produtivos em escala. A política pública precisa enxergar o que já está sendo construído na ponta e fazer essa diferenciação o mais rápido possível. Não há tempo a perder. O momento é agora, pós-COP30.

 

O que falta hoje para essa inovação ganhar escala?

Lígia Tatto: Falta justiça tributária. Já temos conhecimento tradicional, tecnologia e vontade. O que não temos é um ambiente fiscal que incentive quem mantém a floresta em pé e agrega valor dentro do território. Sem isso, a sociobioeconomia segue competindo em desvantagem com sistemas produtivos em escala, mas sem condições diferenciadas de concorrência.

 

Por que a Nomenclatura Comum do Mercosul (NCM) é tão importante nessa discussão?

Lígia Tatto: Porque ela pode finalmente diferenciar os produtos da sociobioeconomia. Atualmente, a forma como os NCMs são definidos invisibiliza iniciativas que valorizam origem, impacto socioambiental e vínculo com cadeias tradicionais. Com essa alteração, o Estado pode passar a aplicar políticas tributárias específicas. Isso muda tudo. A Amazônia deixa de ser apenas fornecedora de matéria-prima bruta e passa a ter voz própria dentro da indústria nacional da bioeconomia.

 

Como a proposta da ASSOBIO pode transformar o cenário atual?

Lígia Tatto: Com um crédito presumido de até 90% para produtos industrializados no Pará, a gente cria competitividade real. É um incentivo para manter a floresta em pé, verticalizar a produção e ampliar mercados. É o mesmo raciocínio que já funciona para outros setores, como o frigorífico: quando o Estado estimula, a indústria responde.

 

Por que esse debate ganhou força agora?

Lígia Tatto: Porque existe urgência. O mundo está concentrando atenção na Amazônia, e isso cria uma janela de oportunidade política. Ou a gente aproveita para construir mecanismos imediatos ou perde mais uma década. O momento é este. Não podemos deixar passar essa oportunidade que está em nossas mãos e dentro da Amazônia.

 

De que forma os pequenos e médios empreendedores se inserem nessa agenda?

Lígia Tatto: São eles que fazem a sociobioeconomia acontecer. Os 130 empreendimentos associados à ASSOBIO já geram renda, empregos e impacto positivo para mais de 70 mil pessoas. Se tivermos uma política tributária justa, esse número dobra. Triplica. A floresta produz riqueza quando tem condições de competir.

 

O que impede a bioeconomia amazônica de ser mais competitiva?

Lígia Tatto: Um modelo econômico que ainda premia a floresta derrubada. Quem produz respeitando o meio ambiente enfrenta custos maiores, logística mais complexa e uma carga tributária que não diferencia quem está queimando a terra de quem está regenerando a floresta. Isso precisa mudar imediatamente.

 

Como a sociedade brasileira enxerga hoje a bioeconomia?

Lígia Tatto: Com distância. A pesquisa que a ASSOBIO lançou mostra que 65% dos brasileiros não conhecem a Amazônia e só 34% entendem o que é bioeconomia. Mas a boa notícia é que existe abertura: mais de 80% acreditam que é possível gerar riqueza sem destruir a floresta. Falta transformar interesse em política pública de fato.

 

E qual é o papel da tributação nessa mudança de mentalidade?

Lígia Tatto: É o de mostrar que a floresta em pé é economicamente viável e lucrativa. Quando o imposto reconhece o valor do impacto socioambiental, o consumidor entende, o empreendedor cresce e o Brasil inteiro ganha com isso.

 

Qual o horizonte que a ASSOBIO enxerga com o novo arcabouço tributário estadual?

Lígia Tatto: Um marco histórico. Se o Estado do Pará consolidar um modelo diferenciado, alinhado com a NCM, isso cria um ecossistema permanente para que a sociobioeconomia deixe de ser exceção e vire regra. É a chance real de transformar a Amazônia em protagonista do desenvolvimento sustentável não só na região, mas para o mundo.

 

Se tivesse que resumir o primeiro passo dessa jornada, qual seria?

Lígia Tatto: Reconhecer, de verdade, quem já está fazendo. Enxergar as comunidades, ajustar a tributação e criar um caminho sólido para um modelo econômico que gere riqueza com a floresta viva. Esse é o início de tudo e já demos o primeiro passo nesta COP30, em Belém, na Amazônia.

Mais sobre a ASSOBIO

A ASSOBIO é uma associação representativa, que reúne 126 pequenos e médios empreendimentos, que visam proteger e promover a sociobiodiversidade da Amazônia, integrando aspectos socioeconômicos e ambientais. Fundada em 2023, é resultado de um ecossistema cada vez mais importante na região e que incentiva uma economia verde, que gera emprego e renda nas cidades amazônicas. Os 126 negócios somados geram mais de R$52 milhões em renda por ano; mais de mil empregos diretos e promovem o impacto positivo em mais de 70 mil pessoas.

 

Texto: Alessandra Barreto  /Assessoria de Imprensa ASSOBIO