Duplo apagamento: ser mulher e construir carreira na Amazônia. Por Thaís Fernandes, mestre em Comunicação, Linguagens e Cultura

Falar sobre carreira para mulheres na Amazônia não é apenas falar sobre desigualdade de gênero. É falar sobre contexto, estrutura e território. É reconhecer que existe uma camada mais profunda nesse debate. Mulheres amazônicas vivem um duplo apagamento: por serem mulheres e por estarem em uma região historicamente fora do centro das decisões econômicas do país.

Os dados ajudam a tornar isso evidente. O nível de ocupação na Região Norte é inferior ao de regiões como Sul e Sudeste. Quando olhamos para o recorte de gênero, a diferença se amplia. Mulheres participam menos do mercado de trabalho do que os homens em praticamente todas as faixas etárias, segundo o IBGE.

Mas existe um ponto que precisa ser dito com clareza. Não é falta de qualificação.

O próprio Censo 2022 mostra que as mulheres têm, em média, maior nível de escolaridade do que os homens. Cerca de 28,9 por cento das mulheres ocupadas possuem ensino superior completo, contra 17,3 por cento dos homens. Ainda assim, essa formação não se traduz em ocupação proporcional nem em renda equivalente.

Na prática, isso revela um problema estrutural. Mulheres estudam mais, se preparam mais e, mesmo assim, acessam menos oportunidades.

Na Amazônia Legal, esse cenário se intensifica. Menos da metade das mulheres está ocupada, e muitas das que estão inseridas no mercado atuam em condições mais vulneráveis, com maior presença na informalidade e em setores historicamente menos valorizados.

Isso limita não só a renda, mas principalmente a construção de trajetória.

E carreira, no fundo, é isso: trajetória.

Não é sobre conseguir um emprego. É sobre conseguir evoluir, acessar oportunidades melhores, ocupar espaços de decisão. E é exatamente aí que o duplo apagamento se evidencia com mais força.

Porque não basta ser mulher em um país desigual. É ser mulher em uma região que também não está no centro do desenvolvimento econômico.

O Brasil foi estruturado com concentração. Grandes empresas, centros financeiros, polos de inovação e oportunidades de alta complexidade estão majoritariamente no eixo Sul-Sudeste. Isso não é percepção. É desenho histórico. E esse desenho impacta diretamente o tipo de oportunidade disponível em cada território.

E existe um ponto que raramente é dito com a devida clareza.

Quando há oportunidades, a escolha pela localidade não é inconsciente. Ela é consciente.

O que se observa, na prática, é que não se exporta mão de obra da Amazônia para o restante do Brasil na mesma proporção. O movimento inverso é muito mais frequente. Profissionais de outras regiões são deslocados para ocupar posições na Amazônia, inclusive em contextos onde há capacidade técnica local disponível.

Mesmo quando é evidente o ganho em performance e entrega com profissionais da própria região, o território ainda se impõe como critério de decisão. Isso revela uma lógica que vai além da qualificação. É uma lógica de centralidade e de poder.

O que isso significa na prática? Que mulheres na Amazônia partem de um ponto diferente. Com menos acesso, menos visibilidade e menos conexão com os espaços onde decisões são tomadas e carreiras são aceleradas.

E existe ainda uma camada mais silenciosa, mas extremamente potente: a ausência de referência.

Quando você não se vê representada, quando as histórias de sucesso não parecem possíveis dentro do seu território, quando os espaços de fala não incluem a sua realidade, o impacto não é apenas simbólico. Ele é estrutural. Ele limita ambição, reduz projeção e enfraquece redes.

E carreira, como sabemos, também é rede. É acesso. É visibilidade.

Por isso, discutir carreira para mulheres na Amazônia não é uma pauta acessória. É uma pauta estratégica. Porque estamos falando de um volume significativo de mulheres qualificadas, com potencial produtivo, que seguem subaproveitadas por um sistema que ainda não consegue integrá-las plenamente.

Não se trata apenas de empoderamento individual. Se trata de reposicionamento estrutural.

Enquanto a Amazônia for tratada como periferia do desenvolvimento, e não como parte central do país que queremos construir, suas mulheres continuarão enfrentando barreiras que não são apenas pessoais, são sistêmicas.

E aqui está o ponto central. Não falta capacidade. Não falta preparo. Não falta ambição.

Falta acesso. Falta oportunidade. Falta inclusão real nos espaços onde as decisões acontecem.

O duplo apagamento não é um conceito abstrato. Ele é vivido todos os dias por mulheres que estudam mais, se preparam mais e, ainda assim, precisam fazer muito mais para alcançar o mesmo.

E reconhecer isso não é fragilizar. É qualificar o debate.

Porque quando nomeamos o problema com precisão, abrimos espaço para soluções que também sejam estruturais, e não apenas individuais.

E é exatamente disso que estamos falando.

De futuro. De desenvolvimento. De um Brasil que ainda precisa, de fato, incluir a Amazônia, e principalmente as mulheres que constroem esse território todos os dias.

 

Por Thaís Fernandes 

 

A autora do artigo é graduada em Marketing, com MBA em Gestão e Desenvolvimento de Pessoas pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e Mestre em Comunicação, Linguagens e Cultura, na linha de pesquisa Sociedade, Representações e Tecnologia.

Atualmente, é Diretora da Afya Educação Médica em Belém. Possui mais de 10 anos de trajetória no setor educacional, com atuação como professora, gestora acadêmica e diretora, além de experiência consolidada em projetos de consultoria em gestão.

Escreveu artigos e atuou como revisora técnica de livros, com produção voltada às áreas de comunicação, educação e gestão. Ao longo de sua carreira, já ministrou diversas palestras, cursos e workshops no Brasil e no exterior, com foco em temas como gestão,

liderança, empregabilidade, educação, capacitação de professores, inovação e o protagonismo feminino no mercado de trabalho.