Em abril deste ano, a ONU Mulheres divulgou o relatório denominado O custo da guerra em Gaza para mulheres e meninas, que alerta que elas representam uma grande parcela das vítimas fatais: 38.000 (entre outubro de 2023 e dezembro de 2025). A população feminina também enfrenta riscos de lesões permanentes, deslocamentos forçados e grave insegurança alimentar.
O cenário global apresenta inúmeros conflitos, com destaque para a intensificação do conflito Irã-Israel, a guerra Rússia-Ucrânia e diversos conflitos na África e Ásia.
Milhões de mulheres e meninas vivem em zonas de conflito, sofrendo com violência extrema.
Em entrevista ao site, a cientista política paraense Sheyla Oliveira Moraes, atuante na área há 17 anos, faz uma análise do contexto.
-Como você vem acompanhando os maiores conflitos mundiais da atualidade enquanto cientista política?
A ciência política consegue perceber que esses conflitos não são caracterizados somente pelas disputas econômicas como espaço territorial, mercado, domínio de petróleo, mas surgem a partir de grupos sociais – cidadãos e empresas – com o objetivo de demostrar o seu crescimento e a sua identidade na sociedade.
E um desses principais eixos, que a gente percebe que geram grandes conflitos na atualidade, são a luta pelo reconhecimento e identidade; as questões socioambientais e territoriais; a crise da representação e da desconfiança institucional, principalmente a partir de métodos alternativos de crescimento econômico que a sociedade tem encontrado a partir do desenvolvimento tecnológico; os impactos da tecnologia e a polarização; a desigualdade estrutural; e os conflitos globais identitários.
-Neste contexto de guerra, quais os impactos nas populações femininas, em sua avaliação?
Há um impacto muito diferente em relação aos homens, que é desproporcional multifacetado, pois frequentemente as primeiras e mais graves vítimas dos conflitos armados são mulheres, mães, crianças, famílias, que estão desprotegidas porque estão dentro de seus lares, estão cuidando de suas casas, e a guerra amplifica essa desigualdade de gênero existente, transformando o corpo feminino em disputa e arma de guerra.
E existem outros impactos que incluem a violência de gênero e a sexual, pois o corpo da mulher é usado estrategicamente para humilhar, intimidar, degradar e destruir uma comunidade.
Em todas as sociedades há o perigo de violência contra a mulher. No sentido da guerra, essa violência se torna pior, pois além das ameaças de bombas, há o risco de agressão sexual.
Além de que diante do afastamento ou morte do homem por questão da guerra, levam a mulher a assumir toda a responsabilidade pela sobrevivência, isso num cenário de extrema escassez.
Outro ponto, é o deslocamento forçado. Mulheres e crianças que compõe as populações em busca de refúgio e durante esse processo enfrentam riscos de exploração sexual e distanciamento de suas famílias, tornando-se vítimas da fome, humilhações e sem acesso à saúde ou cuidados básicos.
Para se ter uma ideia, cerca de 61% de mortes maternas no mudo ocorrem em países afetados por conflitos.
-No cenário pós-guerra, quais você considera serem os principais desafios das mulheres no resgate de direitos?
É complexo afirmar. Pois, a mulher durante o conflito, a mulher passa a perceber os seus anseios sociais de alcance e ou ainda de retorno à normalidade.
O trauma pós-guerra também deve ser considerado (físicos e psicológicos). A mulher que tem seu copo violado tem dificuldade de recomeçar, por exemplo, formar uma família. E aquela que já tem um companheiro, muitas vezes tem que lidar com um homem com a saúde mental esfacelada.
Outro ponto são os desafios econômicos, por exemplo o direito a bens, um processo pelo qual muitas mulheres passam após a morte de companheiros em conflitos.
O papel da mulher na reconstrução daquela comunidade é silenciado ou apagado. Cabendo, em alguns casos, uma sub-representação na condição de assessoria, não em postos de decisão. E Aquelas que atuaram como combatentes, em sua maioria, não são valorizadas.
Esse não reconhecimento tanto na retaguarda, quanto no campo de batalha, traz uma sensação dolorida para a mulher.
Sheyla Oliveira Moraes é graduada em Ciências Sociais ênfase em Ciência Política pela Ufpa, mestre em Ciência Política (Ufpa) e doutora em Relações Internacionais pela UnB área Política Internacional Comparada.