Em evento internacional em Belém, mulheres mostram que são o Jornalismo do futuro na Amazônia

“Me enxergo como uma jornalista em formação, interessada em dar visibilidade às realidades da nossa região, principalmente às comunidades e pautas que muitas vezes não recebem atenção”. O depoimento é de Geovanna Freire, de 20 anos, estudante de Jornalismo da Universidade Federal do Pará (UFPA) do campus Belém, capital do Pará. Na quinta-feira (14), último dia do Bioeconomy Amazon Summit, a universitária participou da Oficina de Jornalismo de Soluções, constante naquela programação. Promovido pela empresa KPTL e pela plataforma Kyvo, o evento internacional realizou-se de 12 a 14 de maio, na Estação das Docas e no Porto Futuro II, em parceria com o Governo Federal e a União Europeia (UE), entre outras instituições do serviço público, da iniciativa privada e do terceiro setor.

A Oficina de Jornalismo teve à frente o instituto Amazônia Vox.

A Amazônia das primeiras três décadas do século 21 se encontra em um cenário em que as mulheres vêm assumindo, cada vez mais, o protagonismo na defesa do território, na produção cultural e no desenvolvimento sustentável. Essas novas vozes – lideranças ribeirinhas, quilombolas, indígenas, ribeirinhas, quilombolas, artistas urbanas, mobilizadoras das periferias, universitárias – refletem a identidade regional, conectando saberes ancestrais a novas tecnologias e lutas sociais.

Para Maria Ludmila Nascimento, de 17 anos, de Benevides, na Região Metropolitana (RMB), a participação na oficina se alinhou com o interesse de se aprofundar na construção de narrativas mais complexas dentro da própria região. “Nós estamos estudando sobre o ‘jornalismo de soluções’, e surgiu a oportunidade de ver mais de perto e conversar com alguém que tem tanta experiência nessa área, então foi um interesse imediato assim, pra saber mais, pra ter mais exemplos, escutar de outras pessoas”, disse a estudante, que também cursa o primeiro semestre de Jornalismo na UFPA.

Essa geração de novas vozes tem as ferramentas digitais e o letramento para pressionar por um jornalismo focado na ação prática, transparência e sustentabilidade, atuando como agentes ativos na cobertura de pautas “bio” e de áreas que reproduzam o modo de viver amazônico.

“Atualmente, tenho interesse no jornalismo cultural, em pesquisar comunidades, comportamentos, eventos e o que esteja sendo produzido de arte e entretenimento dentro da nossa região. Como mulher, acredito que também trago um olhar mais humano e sensível para essas narrativas”, pontua Geovanna.

Geovanna Freire. Foto: divulgação.
Geovanna Freire. Foto: divulgação.

Já a colega Ludmila começa a vislumbrar um outro campo de atuação: “Eu gosto muito do jornalismo político, acho que é um eixo que me interessa bastante, mas eu ainda estou me descobrindo neste mundo. Assim: eu pretendo cultivar de tudo um pouco”, conta a acadêmica.

A resistência e existência se renovam com jovens que utilizam o ambiente digital para contornar narrativas misóginas e promover o empoderamento amazônida.

Maria Ludmila.Foto: divulgação.
Maria Ludmila. Foto: divulgação.

 

Nas palavras de Ludmila, “me enxergo com um dever muito grande de passar isso adiante. É notória a falta de interesse até de nós mesmas em falar da Amazônia, então cada pessoa que reconhece isso tem uma responsabilidade muito grande de fazer com que essa nossa realidade mude. É preciso mais mulheres cientistas, mais mulheres que falam sobre Amazônia, mais mulheres daqui que falem sobre a Amazônia, porque somente nós conseguiremos falar tão bem sobre nós mesmas”.

A oficina de jornalismo de soluções foi ministrada por Daniel Nardin, diretor do Amazonia Vox e gerente Brasil da Solutions Journalism Network.

“Vejo com muito entusiasmo o interesse em participar da oficina em que a gente aborda a sociobioeconomia na nossa região como uma resposta aos desafios que temos no nosso território e que são muitos. Que assim, a gente possa aprofundar uma narrativa propositiva sobre iniciativas locais, feitas por amazonidas, que estão dando soluções aos problemas que temos na região.
Na oficina, tivemos um retrato do jornalismo hoje, que tem uma maioria de mulheres, o que é muito bom, pois elas estão ocupando cada vez mais espaços em todas as áreas, e da mesma forma, percebemos que as iniciativas locais de sociobioeconomia, em sua maioria, também são lideradas por mulheres”, destaca Nardin.

No site da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), está disponível a pesquisa de 2021 que teve o propósito de investigar e mensurar quantos e quem são os/as jornalistas brasileiros/as, no começo desta terceira década do século 21. No indicador “gênero”, elas são a maioria na profissão, com o percentual 57.8%.

 

Por Paula Portilho

Foto: Filipe Bispo